segunda-feira, 11 de março de 2013

Com Sandy, "Quando Eu Era Vivo" inaugura safra de filmes de suspense

Quando o diretor Marco Dutra, 32, leu o
romance "A Arte de Produzir Efeito sem
Causa", de Lourenço Mutarelli, considerou a
obra "inadaptável" para o cinema.
Cinco anos depois, o cineasta --codiretor,
com Juliana Rojas, de "Trabalhar Cansa",
exibido no Festival de Cannes em 2011--
transforma a verborrágica relação entre pai e
filho em um longa de horror psicológico
chamado "Quando Eu Era Vivo".
Filmado inteiramente num apartamento na
avenida São Luiz, no centro de São Paulo, o
longa poderia ser um primo (ou um sobrinho)
paulistano de "O Iluminado" (1980), um dos
clássicos do diretor Stanley Kubrick
(1928-1999).
Júnior (Marat Descartes) é um homem de
trinta e poucos anos que se separa da mulher
e volta a morar com o pai (Antonio Fagundes,
o primeiro a entrar no projeto).
À medida que revira a memória da mãe
morta, o divorciado entra em uma espiral
sombria de demência na qual realidade se
confunde com ilusão. "O filme de Kubrick é a
primeira referência que me vem à cabeça,
inclusive por causa do visual do meu
personagem", brinca Descartes, com uma
peruca de dar inveja a Jack Torrance, o
personagem de Jack Nicholson no thriller. "Há
também a mesma sensação claustrofóbica."
Dutra teve liberdade e a permissão do autor
para mudar o necessário e incluir esse clima
"dark". "A sensação é a de que havia
elementos bons de trabalhar a dramaturgia.
Estou curioso para ver a reação de quem leu
a obra, ainda mais nesses tempos de Harry
Potter, em que tudo precisa ser muito fiel."
A referência a Kubrick, no entanto, poderia
ter virado um elemento secundário em
"Quando Eu Era Vivo". Isso porque, no meio
do ano passado, a cantora Sandy foi
incorporada ao elenco para viver Bruna, uma
estudante de música que divide o apartamento
com os dois homens.

SANDY
Como tudo o que acompanha a popstar
brasileira, a produção se transformou no
"novo filme da Sandy".
Especulações davam conta, num dia, de que
ela faria o papel de uma aluna sexy; no outro,
de que teria cenas de nudez e de sexo no
longa.
"Não sei de onde tiraram essas coisas. A
personagem nem se envolve romanticamente
no filme", rebate Sandy, vestida com uma
roupa de ginástica que, apesar de deixar a
barriga à mostra, passa longe de um visual
picante.
"Estou acostumada com essas bobagens. Meu
nome é muito 'mainstream' e agora estou
fazendo algo underground. Não faço filme
para agradar ninguém."
Apesar de uma presença "estranha" para um
filme de horror psicológico de baixo
orçamento (cerca de R$ 1,5 milhão), Sandy
logo viu que não teria vida fácil.
Dividiu um pequeno camarim com outros
atores, almoçou na região central e se
integrou ao esquema de Dutra.
"É meu primeiro suspense, mas fui aceita
como uma atriz e não como um peixe fora
d'água, uma cantora", diz sobre sua volta,
exatos dez anos depois de estrelar, ao lado do
irmão, a fantasia "Acquaria". "A experiência
agora é diferente. Tenho 30 anos e tenho mais
vivência."
A comoção não durou muito e "Quando Eu
Era Vivo" voltou a ser tratado como filme e
não veículo de promoção para a popstar.
"Quando convidei a Sandy, achei que ela
poderia não topar, porque o roteiro era
bastante sombrio, mas foi tranquilo", conta
Marco Dutra, que é apenas dois anos mais
velho que a cantora. "No começo, muita gente
achou esquisito. Depois entenderam a
presença dela."
A escolha foi mais importante do que parece.
Quando recebeu o convite da RT Features
para adaptar seu livro favorito de Mutarelli,
Dutra ficou preso na profissão de Bruna, uma
estudante de desenho no romance.
POLANSKI E CANNES
"Quando trocamos o desenho pela música, o
roteiro decolou. Vi que a narrativa poderia ter
relação com a música, como eu tinha uma
relação afetiva com Sandy", diz. "Seus discos
estavam juntos com os da Xuxa e de Michael
Jackson na minha casa", lembra o cineasta,
que pediu que a cantora assistisse a "O Bebê
de Rosemary", de Roman Polanski, como
referência.
"Gosto muito de Polanski e de como explora
os espaços domésticos", diz Dutra. "Gosto de
relações familiares e de como elas interferem
no íntimo das pessoas."
Esse estilo do cineasta tem agradado. Com a
amiga Juliana Rojas, que assina a montagem
de "Quando Eu Era Vivo", Dutra teve três
curtas ("Lençol Branco", "O Ramo") e um
longa ("Trabalhar Cansa") no Festival de
Cannes.
Não é avançar o sinal presumir que seu novo
longa possa estar novamente na "croisette",
em maio deste ano. Mas o diretor não pensa
no assunto quando falou à Folha, quase seis
meses depois do fim das filmagens,
acompanhadas pela reportagem, em setembro
passado.
"Não tenho pressão para finalizar. Estou
deixando o filme andar sozinho. Não adianta
ter pressa. Cannes vai olhar para mim com
carinho, mas o longa precisa ter o seu
tempo."

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